Energia Nuclear: Por que parou e por que voltou?

Estas questões intrigam muitas pessoas num cenário geopolítico e estratégico mundial muito mais complexo do que se pode imaginar. Não sendo a intenção deste artigo a explicação dos problemas mundiais, traça-se um breve resumo dos acontecimentos, que permitirá ao público não especializado em questões energéticas compreender alguns aspectos básicos deste assunto, que atualmente entusiasma e inquieta as pessoas em todo o mundo.

Para entendermos esta questão, devemos considerar que a história da energia nuclear no mundo começou de forma estigmatizada decorrente das detonações de dois artefatos nucleares no final da Segunda Guerra Mundial nas cidades de Hiroshima e Nagazaki localizadas no Japão. Anos depois, tal estigma foi acentuado com a ocorrência de um acidente de significativa importância em 28 de março de 1979 na instalação nuclear de Three Mile Island, no Condado de Dauphin - Pensilvânia, cidade localizada nos EUA Posteriormente, no dia 26 de abril de 1986 na cidade de Chernobyl localizada ao norte da Ucrânia na então U.R.S.S, ocorreu um acidente nuclear com conseqüências ambientais muito graves.

Tais eventos, somados a diversos outros eventos menores, porém igualmente indesejáveis, associados a instalações nucleoelétricas ou associados a manuseio indevido de materiais nucleares, resultaram em uma forte manifestação da opinião pública internacional contrária a esta forma de geração de energia. Por consequência já no final da década de 80, observou-se mundialmente a desaceleração nos processos de implantação de novas instalações nucleares e a significativa desaceleração no desenvolvimento de tecnologias associadas à área nuclear.

 

Considerando o crescimento humano e industrial anuais observados em todo o mundo neste período de estagnação da indústria nuclear, os países necessitaram adotar outras opções energéticas para preservação das condições necessárias aos seus desenvolvimentos humanos e econômicos, resultando no desenvolvimento de outras fontes de energias como a energia solar, eólica, das marés e de biocombustíveis, dentre outras. Porém o predomínio das opções das nações foi a utilização imediata de soluções tecnológicas já desenvolvidas e capazes de suportarem as demandas energéticas em grande escala, com implantação em curto prazo, que permitisse o abastecimento energético de forma confiável e constante e a custos viáveis para cada nação. Neste contexto, as opções tecnológicas que atendiam a estes requisitos, para a maioria das nações, foram a geração hidroelétrica e a geração termoelétrica.

 

 

A implantação de várias centrais hidroelétricas em todo o mundo, por sua vez, implicou na utilização de milhares de quilômetros quadrados para implantação das respectivas represas, gerando um impacto ambiental significativo com a destruição da fauna e flora originais em somatória à destruição ambiental decorrente dos crescimentos econômicos das nações. A implantação de várias centrais termoelétricas, por sua vez, aumentou significativamente a liberação de produtos de combustão para o meio ambiente, basicamente monóxido de carbono (CO) e dióxido de carbono (CO2) resultante da queima de combustíveis fósseis (hidrocarbonetos e carvão mineral) em somatória às emissões decorrentes dos crescimentos econômicos das nações.

 

 

Estes eventos associados, (1) a degradação do meio ambiente e (2) o aumento das emissões de CO e CO2, resultaram em um problema que gerou grande preocupação mundial: A alteração do clima em escala planetária. Esta alteração climática pode ser explicada, de forma resumida, como sendo conseqüência da absorção de uma parte da radiação solar que, ao ser refletida pela superfície terrestre, não retorna ao cosmo por ser absorvida por determinados gases presentes na atmosfera como o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O) e os perfluorcarbonetos (PFC's), dentre outros, aumentando a energia térmica do planeta, ou seja, aquecendo-o.

 

 

Estes cenários energético e ambiental atuais, ambos antagônicos para as opções energéticas adotadas internacionalmente, conduziram os países ao estabelecimento de mais de duzentos acordos e tratados nos últimos trinta anos que viessem a minimizar as emissões dos gases de efeito estufa mundialmente, porém tais acordos e tratados não foram conduzidos como propostos por serem de difícil execução. Deve-se considerar que a diminuição de emissões por parte das nações significa atualmente na diminuição de crescimento econômico, no aumento do desemprego com as populações crescendo a cada segundo, ou seja, diminuição da sustentabilidade das nações.

 

 

Nestes últimos trinta anos, no entanto, o desenvolvimento de tecnologias nucleares não foram totalmente suspensos e sim desacelerados, pois existiam instalações nucleares gerando eletricidade em todo o mundo e fábricas de combustíveis nucleares produzindo combustíveis para mantê-las. Os investimentos no setor nuclear, embora reduzidos, permitiram o desenvolvimento em escala mundial de novos reatores nucleares, novos sistemas operacionais de elevada confiabilidade e segurança, de combustíveis nucleares avançados que atribuíram às instalações nucleares elevada confiabilidade operacional e aumentavam sua eficiência, foram estabelecidas novas metodologias de manuseio e estocagem de combustíveis irradiados e otimizadas as metodologias antigas e foram desenvolvidos e otimizados códigos especiais para avaliação da segurança das centrais nucleares ainda durante a fase de projeto das mesmas, dentre outras inovações, tornando as centrais nucleares instalações extremamente seguras operacionalmente, de reduzido custo operacional e de reduzido impacto ambiental.

 

 

Esta nova realidade levou o senhor Ministro de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, a declarar em maio de 2008 a intenção do governo brasileiro de construir novas centrais nucleares a serem instaladas no Nordeste e Sudeste do país até o ano de 2030 e a intenção de estender a tecnologia nuclear brasileira a todas as etapas de produção de combustíveis nucleares. Esta retomada dos projetos nucleares é uma tendência mundial, num cenário onde a “Usina Nuclear” passou de vilã a salvadora de nosso planeta, gerando mais energia elétrica que as alternativas tecnológicas atualmente utilizadas com um impacto ambiental pouco significativo, por não ser poluente.  

 

 

 

Ricardo Gonçalves Gomide

Engenheiro metalurgista pela Universidade Mackenzie

Mestre em Materiais Nucleares pela Universidade de São Paulo 

Sorocaba, 29 de dezembro de 2009.

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