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Programa Brasileiro de Eliminação de HCFCs

 Cronograma estabelece congelamento da produção em 2013 e o mercado de refrigeração e ar condicionado se prepara

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil se coloca diante de um novo desafio: zerar a produção, comercialização e importação dos hidroclorofluorcarbonos (HCFCs). Usados como fluido refrigerante em supermercados, aparelhos de ar condicionado e em geladeiras, os HCFCs surgiram como alternativa aos CFCs por apresentarem uma capacidade 50% menor de destruição da Camada de Ozônio, no entanto, são grandes contribuidores para o aquecimento global.

Para isso, foi criado o Programa Brasileiro de Eliminação de HCFCs, com objetivo de cumprir o cronograma para a eliminação dos HCFCs, que estabelece o congelamento dos níveis de produção e importações em 2013, sua redução em 10% até 2015, e o banimento total em 2040.


A primeira fase do cronograma define que cada país tem um limite de utilização da substância até 2013. Após esta data, os participantes do acordo terão que voltar à média de uso dos HCFCs registrada entre 2009 e 2010. Na segunda etapa do programa, a meta é reduzir em 10% a utilização da substância até 2015. Já em 2020 e 2025, a diminuição terá que ser de 35% e 67,5%, respectivamente. Em 2030, os consumidores terão que abrir mão de 97,5% do consumo de HCFC, e finalmente em 2040 a total eliminação.

Entre as substâncias que serão eliminadas do mercado, destacam-se o R-22 e o R-141b, usados em larga escala como fluido refrigerante. Segundo o MMA, em 2007, o consumo de HCFCs no Brasil foi de 1.545,2 toneladas em PDO (Potencial de Destruição da Camada de Ozônio). Deste total, 53,8% corresponde ao uso do R-22 e 45,1% ao consumo do R-141b.

Magna Luduvice, do Ministério do Meio Ambiente, explica que as características danosas dos HCFCs motivaram as Partes Signatárias do Protocolo de Montreal a abolir, de maneira gradativa, o uso da substância até 2040. A decisão foi tomada em setembro de 2007, e para cumprir a meta, o Governo Federal apresentou ao Fundo Multilateral uma proposta, o Programa Brasileiro para Eliminação de Hidroclorofluorcarbonos – PBH.
A exemplo do que aconteceu com o Plano Nacional de Eliminação dos CFCs, o PNC, as agências implementadoras, como o PNUD, também participam como assistentes técnicos e executores dos projetos.

“O governo brasileiro contou com aporte de US$ 19,6 milhões para iniciar a execução do Programa Brasileiro de Eliminação de HCFCs. A verba foi aprovada pelo Comitê Executivo do Protocolo de Montreal e os recursos serão investidos na conversão da tecnologia de empresas nacionais que usam os gases. O ministério estima que outros US$ 14 milhões devam ser investidos por multinacionais que atuam no país, e que deverão bancar sua própria conversão. Os recursos aprovados também serão destinados às ações regulatórias, projetos de substituição de tecnologias, assim como projetos para o setor de serviços – especialmente os que se referem ao vazamento em tubulações de balcões de refrigeração em supermercados e em aparelhos de ar condicionado. O processo de elaboração do PBH foi concluído em janeiro de 2011, depois da realização de consultas públicas e contou com a participação ativa do setor privado. Em seguida, o programa foi submetido à aprovação do Comitê Interministerial para a Proteção da Camada de Ozônio (Prozon)”, informa Magna.

Segundo ela a partir do investimento inicial, a previsão é evitar em torno de duas mil toneladas métricas do composto na atmosfera, o que equivale a uma redução de dois milhões de CO2 jogado no meio ambiente.

de Oliveira Serio, gerente de marketing da Danfoss para América Latina, lembra que de acordo com o Protocolo de Montreal , em setembro de 2007, os países desenvolvidos como EUA, Canadá, Europa e Japão, se comprometeram em reduzir o consumo e produção dos HCFCs em 75% até 2010, 90% até 2015 e eliminá-los até 2020.

“Atualmente já não se produz equipamentos com R-22 nesses países, mas no caso dos países em desenvolvimento como o Brasil, empresas têm iniciativas importantes em relação ao desenvolvimento, divulgação e aplicação de produtos que usam refrigerantes cada vez mais ecológicos, mas ainda há algumas barreiras que impedem a eliminação de 100% dos HCFCs em novas instalações e equipamentos. Algumas empresas fabricantes de equipamentos e instaladoras ainda não acreditam na viabilidade de fluidos alternativos em termos de custo e eficiência, e esse é um grande desafio para investirmos constantemente em treinamentos e divulgação de produtos e aplicações eficientes”, afirma Oliveira.

Tecnologias disponíveis e investimentos

Para Sami Diba, gerente de vendas da Emerson Climate Technologies, a substituição de HCFCs não pode ser restrita somente ao GWP – Potencial de Aquecimento Global, é uma questão profunda, levando em consideração outros pontos, tais como investimentos, tecnologias compatíveis, toxicidade, inflamabilidade, eficiência energética e know-how. Um ponto importante destacado por Diba é que a substituição dos HCFCs por outros fluidos refrigerantes está mudando a arquitetura dos sistemas de refrigeração como um todo, buscando de acordo com o mercado atender esta nova exigência, como por exemplo, a redução da carga de refrigerante, elemento chave neste processo, com solução de sistemas distribuídos e expansão indireta.

“Os investimentos em tecnologias vão de encontro as tendências de mercado, no desenvolvimento de equipamentos para um menor consumo de energia visando a sustentabilidade das instalações. Para cada aplicação, seja refrigeração, ar condicionado, bomba de calor, disponibilizamos alternativas em compressores ou componentes para operarem como fluidos substitutos, com tecnologia aplicável para a realidade do Brasil. Há um crescimento de novas instalações de refrigeração sem HCFCs, porém acredito que 80% delas ainda operem com HCFCs. É importante salientar que não há soluções prontas e que possam ser replicadas para todo tipo de aplicação, é preciso buscar soluções alternativas para substituição com alta performance”, explica Diba.

 

Compressores scroll para CO2 e Discus para HFCs
Divulgação Emerson Climate

Ele acrescenta que sistemas com grande carga de refrigerante, a redução da quantidade é um ponto importante; investimentos em treinamento para o entendimento de novas tecnologias, e a análise do impacto na cadeia de abastecimento e suas consequências.

Como exemplo de tecnologias para operar com fluido natural ele cita os compressores scroll para CO2 – R-744 usados em sistemas de refrigeração comercial; scroll para R-410A em sistemas de ar condicionado; linha Discus para todos os refrigerantes HFC disponíveis no mercado; e a nova linha de compressores Scroll de 1 a 5 HP para unidades condensadoras com foco na substituição.

A aplicação dos fluidos naturais como CO2, propano e amônia, usados nos mercados de refrigeração para supermercados, refrigeradores comerciais e refrigeração industrial, respectivamente, é citada pelo gerente de marketing da Danfoss.

“Oferecemos toda a linha de equipamentos, controles e controladores para operarem com esses refrigerantes naturais tornando essas instalações viáveis economicamente, mais eficientes e sustentáveis. O principal benefício para o usuário é se valer da tecnologia disponível e sistemas mais eficientes proporcionando menor consumo de energia elétrica e trabalhar com produtos que permitam o uso de refrigerantes mais sustentáveis com menores níveis de GWP, ODP (Potencial de destruição da camada de ozônio) e TEWI (Impacto total equivalente no aquecimento global). Esses equipamentos foram desenvolvidos para operarem com diferentes tipos de fluidos refrigerantes como R-407C, R-410A, R-134a, R-404A, R-507 e fluidos refrigerantes naturais como R-290 (propano), R-744 (CO2) e R-717 (amônia – NH3)”, informa Oliveira.

Ele explica que a Danfoss, por ser uma empresa dinamarquesa, adotou desde 2001 uma política interna proibindo o desenvolvimento de novos produtos para HCFCs em todas as suas fábricas no mundo.

“Essa política se alinha a legislação europeia, que estabeleceu desde 2001 a restrição do R-22 em novos sistemas de refrigeração, ar condicionado e bombas de calor; e em 2004, para os sistemas combinados de bomba de calor e ar condicionado; e para instalações existentes em 2014. Oferece compressores, trocadores e controles mecânicos e eletrônicos aprovados para os principais fluidos substitutos dos HCFCs, como os hidrocarbonetos, dióxido de carbono e amônia”, diz Oliveira.

Antônio Cláudio Montiani Palma, diretor geral da Mipal, alerta sobre a atenção redobrada com a compatibilidade dos materiais (tubos, placas, aletas, elastômeros, solda) em relação aos fluidos substitutos dos HCFCs.

 

Evaporadores que possibilitam de redução de carga de fluido refrigerante
Divulgação Mipal

“Aponto o dimensionamento de bitolas no sentido de assegurar o escoamento condizente do fluido em mistura com óleo lubrificante, em escoamento de duas ou mais fases. Seleção de acessórios como filtros, distribuidores de líquido que assegurem mínimo investimento em compressores. Além disso, o projeto sério de um trocador de calor leva em conta não apenas seu mérito de troca térmica. Esta tem de ocorrer com mínimo de prejuízo ao meio ambiente e a mínimo custo global. Oferecemos evaporadores e condensadores para operarem com CO2. Existe alternativa quanto ao material do tubo e da aleta para este produto, que pode ser aço liga inoxidável, superior ao aço carbono. Para amônia, equipamentos fabricados totalmente em alumínio ou em alumínio e inox”, informa Palma.

Para ele o investimento em desenvolvimento de tecnologia reflete o compromisso das empresas em oferecer soluções compatíveis com novas demandas no mercado, proporcionando eficiência, segurança e sustentabilidade às instalações.

“No Brasil, tanto quanto em qualquer outro país, há experiências concretas na aplicação de todo tipo de fluido, seja o hidrocarboneto, amônia, dióxido de carbono e refrigerante das séries hidrohalogenadas. A partir de 2007, quando o Brasil atendeu antecipadamente o seu programa de substituição dos CFCs, a preocupação passou a ser não só a de proteção da camada de ozônio, mas com a utilização de fluidos que não contribuiriam para o aquecimento global – o conhecido efeito estufa, iniciando assim a busca por alternativas, e a divulgação de qualquer produto novo deve se apoiar em realização prática de sua aplicação. O interesse pelo novo depende também da existência de quem o aplique, o opere e o mantenha, ou seja, na formação de técnicos. A opção brasileira consiste no investimento em formação em mão de obra especializada, porém, faltam profissionais técnicos que dêm respaldo à novidade”, diz Palma.

O analista de produtos da Heatcraft, Alexandre Donegatti, destaca a tendência mundial no desenvolvimento de equipamentos compatíveis para operar com CO2, principalmente na Europa, onde quase 90% dos supermercados trabalham com este fluido.

 

Evaporadores com microcanais compatíveis com o CO2
Divulgação Heatcraft

“No Brasil temos a linha de evaporadores de baixo, médio e alto perfil para sistemas com CO2, aplicados em salas de preparo, antecâmaras e câmaras de armazenagem de produtos resfriados ou congelados. Existem poucas instalações brasileiras com CO2, mas sua procura vem aumentando a cada ano devido ao apelo ecológico mundial. A expectativa é que ainda em 2012 surjam entre 10 a 15 obras com essa tecnologia, uma vez que a divulgação sobre a substituição dos HCFCs, principalmente R-22, está sendo feito em mídias impressas, digitais, e principalmente pelas empresas de fabricação de equipamentos e vendas (distribuição). É importante também, para empresas que já possuem equipamentos para CO2, o investimento na formação de mão de obra qualificada”, comenta Donegatti.

No caso do R-22, o especialista de produtos da Embraco, Fábio Gama, diz que este fluido representa menos de 0,5% dos produtos vendidos no país atualmente. “Desde a década de 90, a Embraco tem lançado soluções compatíveis com fluidos alternativos e conta com produtos para operarem com os HCs (hidrocarbonetos), que atendem tanto ao mercado de refrigeração doméstica quanto comercial, em âmbito global”, informa Gama.

Para Emilio Pancera, supervisor de engenharia de aplicação da Johnson Controls, as tecnologias citadas não trazem somente melhorias, mas sim avanços na redução do consumo de energia. Pancera diz que elas oferecem o principal benefício como menor carga de fluido refrigerante nos equipamentos e possibilitam ainda, créditos para certificação LEED, além de melhorar a equação ambiental, tornam os produtos mais leves com menos paradas para manutenção e menores custos operacionais. Dentre as tecnologias ele cita os compressores centrífugos com mancais magnéticos, condensadores com tecnologia de microcanais e evaporadores com falling-film.

“Nossa política é continuar oferecendo uma ampla gama de produtos, incluindo aplicação para fluidos naturais, como a Amônia (NH3), e para refrigerantes sintéticos, como o 134a, 410 e 407C, de forma a atender as necessidades do mercado. Com o Programa Brasileiro de Eliminação de HCFCs, a entrada destes fluidos no mercado nacional será limitada, e com isto tendem a aumentar o preço e se tornarem cada vez mais escassos. Podemos notar uma mudança dos novos projetos, cumprindo exigências das normas nacionais e internacionais. Mesmo em instalações existentes já percebemos uma mudança ou preocupação dos usuários em atualizar as instalações para se enquadrarem. Novas tecnologias, informações ao mercado e o desejo do cliente em mudar sem esperar soluções mágicas são aspectos fundamentais”.

Financiamento e incentivos 

Na visão de Pancera cada proprietário quer reduzir custos e aumentar o valor e a competitividade de suas instalações, e muitas vezes se faz necessário buscar recursos no sistema financeiro.

“Existem meios de financiamento para aquisição de novas tecnologias, e no Brasil, a principal é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. O BNDES realiza financiamentos com recursos provenientes do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Assim, o BNDES, constitucionalmente, é responsável pela administração de parte dos recursos dos trabalhadores brasileiros, proporcionando adequação para as empresas, com pagamento no médio e longo prazo e baixas taxas de juro”, informa Pancera.

Ele alerta que o BNDES tem critérios para aplicação dos recursos e na liberação dos créditos através de uma cartilha, e os projetos de financiamento são analisados, devendo o usuário estar dentro dos padrões exigidos para administrar os investimentos e dar as garantias adequadas.

Existem ainda outras iniciativas, como por exemplo, a Fundação Clinton Global Initiative, fundo social representado por várias empresas, que tem como missão o desenvolvimento de infraestrutura econômica para microcréditos na concepção, execução, medição e monitoramento de construções verdes, além de dimensionar a oferta/demanda de energia, criando créditos de carbono que poderão ser vendidos a investidores estrangeiros.

“Diversos meios de comunicação já divulgam o assunto, inclusive programas de rádio e televisão dedicados exclusivamente ao meio ambiente. Estamos ativamente envolvidos na elaboração dos regulamentos para os mercados nacionais e internacionais na questão dos fluidos naturais e as normas de segurança eficazes”, comenta.

Reciclagem e regeneração dos HCFCs

De acordo com o diretor da Mipal, o Brasil possui hoje cinco centrais de regeneração, sendo duas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro, uma no Recife e uma em Porto Alegre.

“Ainda este ano teremos o desenvolvimento de mais de 120 minicentrais de reciclagem espalhadas em todo o território nacional. As empresas devem adotar como procedimento padrão e obrigatório o recolhimento de todo o tipo de fluido refrigerante, inclusive na manutenção do sistema. Este procedimento tem que ser feito por meio de recolhedora de gás e cilindros corretos para armazenamento, e encaminhados às centrais de regeneração e reciclagem e posterior utilização e/ou destinação final”, informa Palma.

Pancera acrescenta que todo programa de sustentabilidade tem por função gerenciar e minimizar o impacto ambiental em todo o ciclo de vida do produto, incluindo projeto, fabricação, uso e descarte.

“Através do Ministério do Meio Ambiente e do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs, existem recursos com o objetivo de entregar equipamentos e gerir empresas de reciclagem ou regeneração dos refrigerantes, e assim evitar vazamentos para a atmosfera. E em parcerias com instituições como o Senai, realizam treinamentos para conscientizar os profissionais da importância deste tema. A reciclagem e regeneração de fluidos refrigerantes fazem parte do plano nacional, e estas iniciativas visam recolher, armazenar, transportar, tratar e reutilizar os fluidos de forma sustentável e segura”.

Ele diz que dados apontam para uma economia em cerca de 30% quando comparado ao mesmo fluido novo, além de benefícios conseguidos em atendimento às legislações vigentes, como a norma ambiental ISO 14000 e a norma Internacional ARI-700.

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